Tenho ouvido muitas opiniões sobre a cassação do ex-vereador Ralf Leite, mas em geral lançadas por interesses de um lado e de outro.
Se até agora nada escrevi sobre o caso, porque me enojava falar desta figura pequena e abjeta, criada por esse modelo eleitoral e por esse modelo de sociedade e de família tão deturpados. Manifesto-me agora porque o jogo mudou de lugar.
A mobilização popular e a decisão histórica foram um marco indelével na vida deste legislativo. Goste-se ou não, o atual presidente teve participação decisiva.
Mas agora estão dizendo que Ralf vai voltar ao mandato com uma liminar da justiça. Confesso que não temo por isso, pelos seguintes motivos:
- Embora alegue cerceamento de defesa, não é verdade. Ele teve todas as oportunidades de se defender, pois, até o judiciário reconheceu isso.
- Se em sua defesa tivesse dito que o ato de fazer sexo com um travesti menor era tolerado pelo Conselho Tutelar, pelo Ministério Público e pela Delegacia do Menor que permitiram que um menor se prostituísse na rua, seria razoável. Mas ele preferiu o caminho errado de dizer que foi montagem e acusou a polícia. Errou feio e persistiu no erro.
- O julgamento foi pelo voto aberto e pela livre manifestação dos seus pares, em 19 membros, 16 julgaram que ele quebrou o decoro. Basta essa demonstração cristalina da vontade dos vereadores para legitimar a decisão.
- E se o decoro é uma questão subjetiva, com a manifestação do entendimento, também subjetivo de cada vereador, ficou sedimentado que o decoro foi quebrado. Ponto. Foi esse o sentimento majoritário do sodalício Não cabe ao judiciário querer interpretar a vontade subjetiva, uma prerrogativa política da casa.
- Que não se alegue a pressão popular. O povo fez o que tem obrigação de fazer, pois, tanto a eleição do vereador vem do voto popular, quanto o poder de que estão investidos os pares que julgaram o acusado.
A cassação, portanto, é um fato consumado.
No entanto, como temos visto tanta coisa nesse nosso judiciário, nunca se sabe. Mas uma coisa é certa: o magistrado que se atrever a achar pêlo em ovo e buscar razões, com exegese no arco da velha ou na casa do chapéu, vai se haver com o povo.
Não será aceitável que a vontade popular seja subvertida por truques jurídicos, mesmo nesse mundo afeito a todas as possibilidades.
A sociedade deve ficar vigilante e mobilizada. Se a lavagem simbólica da Câmara foi importante, se as galerias lotadas também ajudaram, é preciso se manter atento.
Assim que um eventual processo for distribuído na justiça, devemos convocar o povo. Talvez seja necessária a lavagem de algum gabinete ou de algum Tribunal...
Por fim:
Ver o garoto invocar a bíblia no ato da cassação, foi hilário. Deve ser tolo demais para pensar que enganaria alguém com tais apelações. Pelo que vê e ouve dele, jamais tocou numa bíblia. Nem por religião, nem por curiosidade histórica.
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Ademar Adams é jornalista e dirigente da Ong MORAL



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